EXPOSIÇÃO MANDALAS DA FLORESTA

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A artista plástica acreana, Simone Bichara, realiza sua próxima exposição na Procuradoria Geral do Estado do Acre, do dia 02 a 10 de dezembro de 2010. Essa é a quarta exposição de Simone esse ano. Duas em Brasília e uma no Rio de Janeiro. Para essa exposição são 25 obras pintadas com tinta acrílica e nankin sobre madeira reciclada, e 6 obras impressas a laser sobre papel fotográfico.

A Procuradoria Geral do Estado do Acre apresenta: MANDALAS DA FLORESTA

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Workshop de Deeksha

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Experiência da Unidade

Um workshop para o despetar da consciência e iniciação em Deeksha.
(Para melhor visualização, clique na imagem)

MARINA NO ACRE

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A senadora acreana Marina Silva profere palestra dia 27 de novembro, na Biblioteca Pública de Rio Branco, às 14h. A entrada é grátis.

Participe! É muito bom estar junto de Marina, ouvir suas sábias palavras...É um tônico para nossas esperanças tão escassas nos dias atuais.

Marina é uma utopia que nos moveu, e nos move a energia para mais uma vez sonhar e tentar construir um Brasil mais humano, belo, justo, digno e sustentável.
E viva o Verde! Viva a natureza! Viva a Rainha da Floresta!
E que Marina possa seguir e cumprir sua missão com saúde, força, alegria, proteção e sucesso.
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Confiram mais detalhes no folder.

Simone Bichara, o belo e a existência - Por Isaac Melo

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Isaac Melo tem uma alma acreana. Tem uma sensibilidade que transcende; uma particularidade na escrita que a torna suave e profunda e, o melhor, tem poesia e percepção nos seus sentidos.
Foi capaz de sentir as Mandalas da Floresta com uma propriedade que não só me deixou lisonjeada, como em êxtase de alegria, ao perceber que elas tocam esse ser tão sensível.
Isaac, mais uma vez, muito obrigada!
Para vocês, o texto que ele escreveu sobre o meu trabalho e o link do maravilhoso Blog Alma Acreana de autoria de Isaac Melo – o “dono” não só da Alma Acreana, como da Alma Sábia e Buscadora.



SIMONE BICHARA, O BELO E A EXISTÊNCIA

Por Isaac Melo

Alles Leben Leiden ist – toda vida é sofrimento – afirmava o filósofo alemão Schopenhauer, pensamento relevante para a composição de sua filosofia do belo. Mas, para o filósofo, há um momento privilegiado, iluminado e redentor, em que consideramos a essência das coisas, deixando de lado o sofrer. É o momento da contemplação estética da Idéia, do belo. Se a Vontade se afirma na natureza por motivações fenomênicas e ilusórias, eis subitamente a possibilidade de instalação, na consciência, de uma outra visão, outra perspectiva, isto é, de vivenciarmos outro estado diferente do cotidiano. O belo pode apresentar-se a qualquer instante, basta haver ocasião favorável, pois o que possibilita o estado estético é uma “ocasião externa” ou uma “disposição interna”. Quando menos esperamos, somos surpreendidos e eis a beleza!
As palavras anteriores organizei-as, a partir de um livro de um dos maiores conhecedores do pensamento schopanhaueriano, Jair Barboza, a quem tive a o privilégio de ser aluno. Palavras recolhidas para falar de uma acreana, artista plástica, criadora de belezas.
Simone Bichara surpreende com sua arte. Em suas pinturas e mosaicos somos acometidos por aquele torpor que toda verdadeira arte deve provocar naqueles que a contemplam: o deslumbramento, o transcender. A arte como exploradora da existência humana, ajuda-a também a desvelá-la. Para Schopenhauer, temos a beleza quando nos libertamos, por instantes, do estado existencial doloroso, e assim nos perdemos por inteiro na luminosidade da beleza. Difícil pensar diferente quando se observa as mandalas da artista riobranquense.
Nas mandalas encontram-se nacos da alma de Simone Bichara. Mandala (da palavra sânscrita मण्डल) dentre o seu universo simbólico pode ser compreendida como a representação geométrica da dinâmica relação entre o homem e o cosmo. Dito com as palavras da artista acreana: “as mandalas servem como um mapa da realidade interior que orienta e sustenta o desenvolvimento psicológico daqueles que desejam progredir na consciência espiritual. É um poderoso instrumento visual que provoca visões, concentração e meditação. São formas, portanto, que representam unidade, organização e harmonia”.
Conhecedora de sua arte não se satisfez apenas com a bagagem intelectual que adquiriu, História (UNB) e Holismo (Fundação Cidade da Paz/Bsb). Foi aos recônditos da alma acreana, à floresta, à convivência com indígenas, seringueiros e ribeirinhos, descobrindo dentro da floresta as cores e as formas mágicas e curadoras que emanam das matas. Fato que, se não agregou mais valor ao seu trabalho, com certeza, mais autencidade.
De Simone e sua arte não falo como entendor, me falta competência para tal, mas antes como admirador intrépido de nossas belezas, sejam elas artísticas, culturais, naturais ou humanas, desde que nos ajudem a sair da caverna escura da ignorância de nossa própria existência.


Postado em www.almaacreana.blogspot.com

MANDALA "FLUIDEZ"

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FLUIDEZ
Flui como a criança poeta que brincando de azul se mela com ele.
Como a despreocupação de chegar dos bichos-preguiças e dos compositores que gostam de redes.
Como a meretriz de maquiagem desarrumada indo embora para casa, antes do sol acordar.
Como os tropeços do palhaço sem graça porque não encontrou o seu circo.

Flui como relâmpagos repentinos em noites planejadas.
Como plumas vadias sem pretensão de ascender.
Como joios de trigos que só querem colorir de dourado os espaços.
Como peixes que observam e nada. E nada.

Como musas indolentes que apenas querem seduzir seus crentes.
Como jardins sem jardineiros, onde matos crescem desordenados, passarinhos fazem ninhos, aranhas acrobacias e arquitetura, centopéias engordam e, por vezes, jacarés passeiam.
Como gracejos de maestros sabiás e como pó virando tempo.
Como formigas bebendo água nos orvalhos e baleias bailando nos oceanos.

Flui como a vida repentina e cenográfica. Delicada e pornográfica.
Majestosa e poética. Frágil e hermética.
Como os nossos sangues jorrando para a mesma veia.
E os nossos nervos agitando-se para o mesmo sentimento.
E as nossas ternuras para a fruição do acaso. Dispensando vestes ou trapos, e importando-se apenas, com a casualidade de encontrar alguém para se ser terno.
Tudo o mais fluindo. Os mais promíscuos versos transparentes e os mais altos planetas e esferas.
E as galáxias brincando de ser criança. E o Universo se enchendo de esperança.
...E a Mandala Fluidez fluindo como uma dança!

Projeto a Mandala e a Palavra:
Mandala: Simone Bichara - Texto: Daniella Paula Oliveira
Novembro/2010

"ANOTAÇÕES"

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A CHUVA...
...

A chuva faz barulho embalando minha alma melancólica
Banha minha floresta empoeirada e cinzenta das queimadas dos últimos meses
Traz alegria aos cantos dos pássaros
Águas para nossos rios que são estradas
Lava a terra castigada pelo progresso dos tempos modernos
E silencia a vida agitada
Forçando-nos ao mergulho interno, ao aconchego do lar
Faz renascer a vida na nas terras desse lugar
Ressuscita lembranças
E embala nossos corações
Chuva sagrada
Que aviva o verde
A esperança
Que traz fartura
E abundância
Silêncio e meditação
Quem me dera possa
Com você
Alcançar minha iluminação?




A transformação que vem com a noite...

...E a noite vem chegando
o dia se despede
o sol dar lugar as sombras
que ocupam a imensidão do céu
antes azul e branco
iluminado pela clareza que se chama dia
a calma vai se instalando
a floresta se recolhendo
Nenhum pássaro canta
Outros bichos tomam conta do cenário
corujas
morcegos
ratos do mato
animais de quatro patas
no céu
Estrelas brilham sem luz própria
mas brilham...
tem noite que tem lua
e os mistérios desse lado do dia se anuncia
Imaginações florescem
é hora de contar histórias
Acender fogueiras
sair pra dançar
ou simplesmente, aquietar-se
Obrigatoriamente
a noite em algum momento nos leva ao sono
essa viagem do descanso do corpo
esse "time" pra alma passear
lembrar que é livre
que tem 'asas'
que é atemporal
A noite vem vindo
silêncio e nostalgia
a quietude acalmando as energias
naturalmente a vida mergulha no oceano do dia
faz-se silêncio
é hora de prece
de oração
a Mãe do Mundo entra em nossas casas
e também em nossos corações
a correria do dia dar passagem e vez à instrospecção
São sombras da noite
que nos fazem sentir e pensar nas luzes do dia vivido
ações
caminhos percorridos
acertos
enganos
é a sabedoria da noite
corrigindo as ações do dia
E a noite chegou
Ave Maria
que todos os dias
nos benze de amor
e perdoa nossas agonias
Amém!

"Anotações" Simone Bichara

NOSSOS ÍNDIOS DO ACRE

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FOTOS DOS ASHANINKAS
Por Simone Bichara
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Nossos irmãos indígenas são os verdadeiros filhos e guardiãos da floresta Amazônica. Conhecedores profundos da natureza e de seus mistérios, os índios nos orgulham por sua sabedoria, força, coragem, nobreza e conhecimentos ancestrais.

Simone Bichara - Trabalhou durante cinco anos com várias etnias indígenas no Acre, através da Comissão Pró-índio e da Funai/Acre.

MANDALA 'VITRAIS'

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VITRAIS
...
Nos cacos de vidros dos vitrais existe sempre uma comunhão de sinais.
Seu efeito miraculoso e retalhado é um espectro probo de um íntimo motriz.
Onde por meio das suas fagulhas e labirintos, desenhamos a enigmática efígie da nossa essência.

Os vitrais d’alma nos conduzem as reminiscências primordiais:
Textos védicos, músicas medievais, trovadores apaixonados, paisagens góticas, versos alexandrinos, deuses antropomórficos, as novelas de cavalarias, as iguarias...
As sutilezas para ser romântico, as alegrias para ser autêntico, as sensibilidades para ser sábio, as pequenezas para ser grande, as simplicidades para ser inteiro.

Dentro dos prismas que compõem vitrais o mistério faz sua morada.
Dentro da alma de luz plácida, mosaicos de vidros formando vitrais.
Dentro de cada vitral, um quintal, um roseiral; uma flecha, uma mescla de cor e som.

Lá dentro, de cada meticulosa composição vitral, vivem almas perfumadas, gotas de orvalho crepusculares, flores surpreendidas por primaveras, sonhos de asas, anjos adormecidos, melodias esquecidas, pétalas carmim, livros angustiados, mares nunca navegados, árvores abraçadas, rouxinóis em harmonia, sol e lua no mesmo dia; mandala em sua própria contemplação, colando os cacos com precisão e construindo vitrais em nossos corações
.
....
Mandala de Simone Bichara
Texto de Daniella Paula Oliveira
Do projeto "A Mandala e a Palavra".

TEXTO PARA MIM MESMA

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Por que teria eu que me encaixar na fôrma social, cultural, econômica ou mesmo espiritual que aí está massacrando e cortando as raízes tradicionais dos povos? Quem pode me afirmar o que é certo ou errado, se deve ser assim ou de que jeito for? Quem pode falar de mim ou por mim? Só eu me conheço e olhe lá se bem, pois também estou à procura de mim mesma, do resto que me sobra depois de anos sendo criada e recriada por uma cultura massiva e nefasta. Quem pode falar de mim ou por mim, só sou eu mesma! Só eu sei o que sinto, como vivo, o que penso, desejo, sonho ,elaboro, busco, luto e invisto. Quem pode falar de mim e por mim, só eu mesma. Só eu posso mergulhar nas sombras de minha alma ou na luz do meu Ser...
Quando nas caminhadas pela vida, a dor me visita quem está aí, lá ou aqui para me socorrer, acalentar meus prantos, meus medos, minhas dúvidas... A dor de viver num mundo tão compreensível, óbvio, ao mesmo tempo tenebroso, indecifrável, gigante, misterioso e por vezes cruel. Quem poderá me amar nesses momentos? Eu e a essência divina que habita o mais profundo de mim; aquela força que mesmo quando nos sentimos dobrados, não quebramos; envergamos, mas não quebramos. Há uma energia maior em nós, há uma centelha de luz que nos impulsiona a seguir. A seguir não de qualquer jeito; a seguir procurando aprender com as experiências do passado, com mais singularidade, brilho e verdade e a existirmos como único em todo universo.
Não entendo quando sou cobrada ou criticada por não seguir uma única reta, uma seta ou sei lá que meta que alguém sempre tem para apontar. Que a sociedade tenta empurrar o indivíduo. Será por que é tão importante que sejamos todos muito iguais? Não prestigio modelos, sou anti-convencional, não creio em fórmulas, não suporto rótulos.
Sinto-me como a força onipotente, onisciente e onipresente que me criou e criou a todos. Sem orgulho, prepotência, vaidade e ilusão... O caminho é outro. A liberdade vem do coração... Cada um sendo o que é, expressando sua singularidade, permitindo-se Ser e deixando espaço para quem quiser fluir. O que realmente importa é a luz dentro do ser. Só ela, aliada à inteligência e ao conhecimento é capaz de nos elevar ao júbilo da sabedoria. A sabedoria é um dom maior do que ser espiritualizada. A sabedoria pode estar em tudo. Um sábio pode elevar uma nação inteira à era de ouro. Com ela, a justiça será possível, a divisão dos bens materiais também. Haveria alimento para o corpo e para a alma de todos nós. Haveria paz dentro e fora dos corações e a alegria seria nosso estado permanente. A sabedoria seria capaz de extinguir a violência, a miséria econômica e cultural. Só ela, permitirá a liberdade de cada um ser o que realmente é, e poder expressar suas qualidades sem o desejo de ser ou não aceito, enquadrado, acolhido... Com a sabedoria as diferenças serão prestigiadas – valiosas para nosso crescimento.
Parece uma grande ilusão tudo isso... Mas não é! Só quando o homem se conhecer e puder expressar sua individualidade, haverá paz nesse planeta. A transformação vem de dentro. É dentro que vomitamos o ódio, a ganância, a vaidade, a luxúria e a injustiça. Por isso luto pra ser o que sou, me esforço no caminho do auto-conhecimento, busco ser eu mesma e procuro não me enquadrar nos esquemas sociais que te dão muito, mas te pedem a alma livre e única em troca de presentes passageiros e tão custosos ao equilíbrio interno e externo de um Ser.
O movimento é holístico! Tudo deve está dentro, incluído, nada fora!Compreender o homem em todas as suas dimensões. Basta de olharmos para nós, como se fossemos só a mente, ou corpo, ou emoção ou mesmo espírito. Nós somos tudo isso. Precisamos urgentemente nos polir. Cada um tem a potencialidade de ser a gota d’água que compõe o oceano ou o próprio oceano, entende? Temos milhões de potencialidades. Cada um que faça sua parte e crie suas obras por dentro e por fora. Cada um que coloque seu valor aonde desejar. Mais importante que o externo é o interno ou tudo junto. Só nossa grandeza interior viajará conosco quando chegar à hora de partimos para outro lugar. E os frutos bons que gerarmos e deixarmos pelo planeta afora, também nos fazem eternos nos corações de quem fica. São pérolas preciosas – nossos serviços, nossas plantações. E dessa missão cumprida, dessa consciência de ter feito e ter distribuído o melhor de si, levamos conosco a nossa luz livre e serena.
Aprendi que a simplicidade voluntária é uma prática incrível e ecologicamente correta. Você ser simples, extrair da terra apenas o necessário, compartilhar, somar, criar... Aprendi que moldes sociais favorecem um tiquinho de pessoas que detêm o poder e a concentração de rendas em suas mãos. Enquanto a maioria leva uma vida sofrida, muitos beirando a miséria no seu sentido mais intenso. Diante desse quadro, quero sempre ser livre e fazer a minha parte como sujeito e não objeto da história. Quero ser e ajudar a construir uma história nova, da qual todos façam parte, não só da luta, mas das graças também.
Penso que cada um em seu lugar tem seu valor e sua força. Que cada um faça sua parte, colabore com consciência. Seja qual for a sua crença, a sua formação, o seu trabalho; seja total nisso, seja o melhor, o mais comprometido, o mais feliz!
Ninguém tem que ficar esperando cada um que faça sua parte, que erga sua torre, construa sua ponte, some de fato para que este mundo se torne um lugar para todos de maneira digna e saudável.
Que a paz brote de cada movimento. Que ela se faça no agir, no ser, no criar, no distribuir... Que a serenidade habite com beleza os nossos corações e a alegria seja uma dádiva divina que simplesmente é por sermos o que somos e estarmos aqui viajantes nesse planeta abençoado. Que os homens valorizem a vida, o dom e a graça de tudo que o criador colocou à nossa disposição. Que cada um saiba valorizar e cuidar e colaborar para manter, multiplicar e engrandecer essa criação. Que Deus lá do alto em seu infinito amor, nunca se arrependa de ter criado e ter amado tanto esses filhos.
Cada um sendo o que é em sua grandeza procure a liberdade e a integridade e não caia no jogo da miséria espiritual e cultural que arrasta os homens para a miséria social e econômica. Não permita que calem a sua voz. Não se venda barato, aliás, não se venda nunca, porque o preço da liberdade ninguém poderá jamais te pagar. Seja você mesmo, vale a pena ser único em todo o universo – Já pensou nisso
?
*****
Texto e mosaico de Simone Bichara

E as chuvas chegaram...

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E as chuvas chegaram...

Escrito por Florentina Esteves - 14 de nov.2010

Nuvens baixas tangidas pelo vento formam bizarras paisagens. No ar, uma tensão que os passarinhos traduzem em insistente chilrear. Como um casaco apertado, o calor sufoca, derrama-se em suor. As pessoas olham o céu, esperançosas: vai chover?
Assim aqui em nossos trópicos, ontem ou hoje. Só que hoje mais exasperado. A natureza não perdoa. O que lhe tiraram de mata, ela revida em descomedimento, desregramento, imprevisibilidade.
Não faz assim tanto tempo, os bairros Bosque e Floresta tinham, de fato, as características que lhe deram a denominação. Os bairros, amenos, arborizados, ofereciam sombra ao longo de suas ruas. Em cada quintal encontrávamos copadas mangueiras, o cajueiro, graviola, cupuaçu, laranja, para todo paladar e sombra. Mas Rio Branco crescia, os prédios de apartamentos disputam com o aprazível dos quintais o espaço da moradia, o asfalto compete com a rua de terra batida, o verde é empurrado para mais longe, mas distante, restando ao citadino o calor abrasador das urbes, ao sol inclemente de nosso clima. E onde as chuvas representam dádivas dos céus: abrandam o calor, varrem a poeira, regam as
Plantas: da horta ou do jardim, e ainda oferece à paisagem sempre monotonamente radiosa, o langor, um espaço para sonhar, para lembrar. Lembrar de quando as chuvas, anos atrás, eram esperadas como manancial de vida, ao dar água ao rio, que permitiria a navegação de maior calado. Com ela chegavam às embarcações que traziam provimento da mesa, o vestuário, remédios, e o supérfluo, tudo o que não era produzido na região e fazia o deleite de nossa gente. Sem falar nos filmes que seriam exibidos (a exausto) no cinema; os discos, livros, revistas – a cultura.
Começavam a chegar, com as chuvas, chatões, chatinhas, gaiolas, lanchas de maior calado. Anunciavam sua chegada com alegres apitos, logo avistavam a cidade. E eram recebidos festivamente, especialmente se traziam passageiros ilustres; o barranco se enchia de gente, e não faltasse a Banda da Polícia Militar, entoando vibrantes dobrados. A cidade ganhava ares de festa. Porto enfeitado, de dia o vai-e-vem do desembarque dos produtos trazidos, ou do embarque de castanha, borracha, couros e peles. À noite, iluminadas, as embarcações figuravam um presépio, a porfiar com o céu recamado de brilhantes estrelas, quem Luzia mais, quem instigava mais a imaginação dos que, em terra, sonhavam com a evasão, a aventura dos grandes centros. Belém e Manaus ganhavam a preferência da maioria. Mais próximos menos dias de viagem, oferecendo oportunidade de estudo, tratamento de saúde, ou lazer, era a grande Meca dos que por aqui viviam – e sonhavam.
Nosso intercâmbio comercial também se fazia com essas duas praças. Para lá mandávamos nossos produtos regionais. De lá recebíamos praticamente tudo. Sem estradas, São Paulo, Goiânia, Rio de Janeiro e os demais estados fora da região norte não eram acessíveis, a não ser por avião (isso muitos anos depois), com frete muito caro, que os inviabilizavam para o comércio. Desta forma, dependíamos da água do rio, e nossa economia girava em torno dos caprichos da natureza, em razão das águas que alimentavam o rio... E nosso espírito e nossa alma. As chuvas comandavam a vida.
Entre novembro e abril – quem sabe, maio – era o chegar e partir pelo rio. Depois, o resto do ano era o resto. Tempo de espera. Tempo de malhar Judas, da Festa das Flores, folguedos dos santos juninos, dos festejos do Seis de Agosto, Sete de Setembro, Quinze de Novembro, e eis que chegam novamente as águas; tempo de viver e de sonhar. Porque as
chuvas chegaram...



*ESCRITORA ACREANA

COMO UMA BOA ACREANA

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"COMO UMA BOA ACREANA"


Como uma boa acreana
Daquelas de pé rachado
Tenho o coração aberto
Até mesmo escancarado
Mas venha bem devagar
Sabendo como pisar
Pois do jeito que sei receber
Sei também me defender.
Jurema foi quem me ensinou
De tudo me proteger
Oxossi o provedor
Acolhe e dá valor
Mas se a coisa fica feia
Iansã também guerreia
!

SOBRE O ALECRIM

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Sobre o Alecrim


Um cheirinho de Alecrim

Há dias em que tem-se a impressão de se estar dentro de um espesso nevoeiro.
Tudo parece monótono e difícil e assim o coração FICA TRISTE.
É para a nossa alma uma verdadeira noite escura e sombria.

Vou lhes contar uma fato que se passou comigo...
Era meu aniversário e justamente um destes dias super estranhos, quando uma voz interior me disse:
- 'Você precisa tomar chá de alecrim!'
Fui ao jardim e lá estava nosso viçoso pé de alecrim. Interessante é que quase todos que visitam nossos jardins demonstram afeição e respeito por esta planta.
Confesso que nunca liguei muito para ele.
Mas, naquele dia, com toda reverência, colhi alguns ramos, preparei um chá e o servi em uma xícara especial. O aroma era muito agradável e, a cada gole que bebia, sentia a minha mente ir clareando.
Uma sensação de bem-estar e alegria foi se espalhando pelo meu corpo e senti enorme felicidade no coração.
Fiquei muito impressionado com a capacidade dessa planta transmitir inclusive ALEGRIA. Aliás, o Nome alecrim já lembra alegria.

Resolvi à partir de então pesquisar a respeito e, veja só que maravilha!

O alecrim - Rosmarinos officinalis, planta nativa da região mediterrânea - foi muito apreciado na Idade Média e no Renascimento, aparecendo em várias fórmulas, inclusive a 'Água da Rainha da Hungria', famosa solução rejuvenescedora.

Elizabeth da Hungria , aos 72 anos recebeu a receita de um anjo (um monge?) quando estava paralítica e sofria de gota.
Com o uso do preparado, recobrou a saúde, a beleza e a alegria.
O rei da Polônia chegou a pedi-la em casamento!

Madame de Sévigné recomendava água de alecrim contra a tristeza, e também para recuperar a alegria.

Rudolf Steiner afirmava que o alecrim é, acima de tudo, uma planta calorífera que fortalece o centro vital e age em todo o organismo.
Além disso, equilibra a temperatura do sangue e, através dele, de todo o nosso corpo.
Por isso é recomendado contra anemia, menstruação insuficiente e problemas de irrigação sangüínea. Também atua no fígado.
E uma melhor irrigação dos nossos órgãos, estimula o metabolismo dos mesmos.

Um ex-viciado em drogas revelou que tivera uma visão de Jesus que o tornou capaz de livrar-se do vício. Jesus lhe sugeria que tomasse chá de alecrim para regenerar e limpar as células do corpo, pois o alecrim continha todas as cores do arco-íris.

O alecrim é digestivo e sudorífero.
Ajuda a assimilação do açúcar (no diabetes) e é indicado para recompor o sistema nervoso após uma longa atividade intelectual

É recomendado para a queda de cabelo, caspa, cuidados com a pele, lesões e queimaduras; para curar resfriados e bronquites, para cansaço mental e
estafa; ainda para perda de memória, aumentando a capacidade de aprendizado.

Existe uma interessante lenda a respeito do alecrim:

Quando Maria fugiu para o Egito, levando no colo o menino Jesus, as flores do caminho iam se abrindo à medida que a sagrada família passava por elas.
O lilás ergueu seus galhos orgulhosos e emplumados, o lírio abriu seu cálice.
O alecrim, sem pétalas nem beleza, entristeceu lamentando não poder agradar o menino.
Cansada, Maria parou à beira do Rio e, enquanto a criança dormia, lavou suas roupinhas.
Em seguida, olhou a seu redor, procurando um lugar para estendê-Las.

O lírio quebraria sob o peso, e o lilás seria alto demais???? O que fez então Maria...
Colocou-as então sobre o alecrim e ele suspirou de alegria, agradeceu de coração a nova oportunidade e as sustentou ao Sol durante toda a manhã.

Obrigada, gentil alecrim! - disse Maria.
Daqui por diante ostentarás flores azuis para recordarem o manto azul que estou usando. E não apenas flores te dou em agradecimento, mas serão aromáticos todos os galhos que sustentaram as roupas do pequeno Jesus.

'Eu abençôo suas folhas, caules e flores, e à partir deste instante terão aroma de santidade e emanarão saúde e alegria...'

Meus Caros Amigos, um bom chá de alecrim para todos Vocês



"Alecrim Alecrim dourado
Que nasceu no campo
Sem ser semeado

Oh meu amor....
Quem te disse assim
Que a flor do campo
É o alecrim".

MANDALA 'RODA DE CURA'

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RODA DE CURA

Toques suaves na alma e um orvalho equilibrista aos pés dos nossos olhos.
Pelugem das asas de anjos distraídos, que as esqueceram em nossos sonhos.
Ervas esfiapadas e sangradas nas mãos de um curandeiro.
Acalanto silencioso de olhar de mãe. Cheiro de mãe.
Bálsamos confeccionados por suores camponeses.
Colo e oração de criança.
Música. Poesia e dança.

Ferida estancada pelos dedos do coração.
Cicatriz apagada pela grandeza do perdão.
Dor apaziguada pela singeleza de um carinho.
A volta de um pássaro ao seu ninho.
Pajés e espuma de mar.
Atenção à respiração e a delicadeza do ar.

E tudo mais que o Deus que nos habita dizer que é cura.
Como a Roda de Cura.
Como a Mandala e a sua essência crua.
Mandala pintada por Simone e texto de Daniella Paula Oliveira.

MARIA BETHÂNIA E MARINA SILVA

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BETHÂNIA E MARINA

A cantora Maria Bethânia sempre demonstrou apreço pela senadora e ex-ministra Marina Silva.Desde 2008, em conversa com Bethânia, lá em Santo Amaro da Purificação, dentro da igreja enquanto fazíamos os preparativos para a procissão da Festa da Purificação, Bethânia me disse que achava Marina uma pessoa íntegra, honesta e inteligente,de uma força rara.Recentemente em entrevista ao Jornal O Estado de S. Paulo, a cantora baiana fez comentários sobre a senadora acreana e ex-candidata a presidência da república.

Bethânia é uma mulher muito inteligente,espiritualizada, uma artista consagrada e que hoje se mantém reclusa, mas que presta atenção ao que acontece no mundo, em seu país e com sua gente. Sobre Marina ela disse que ficou bem atenta a ela:

"Acho uma novidade real no Brasil. Acho que ficou claro que tem uma luz, que tem uma voz da floresta bonita, encantadora, muito sóbria, com a força da floresta. É assustador quando ela levanta o olhar, empurra a gente, aquilo é muito forte. Fiquei bem impressionada, fiquei feliz de ver uma novidade. Achei bonito o Brasil ter uma pessoa, uma moça que vem do Acre e ter falado daquele modo, e ter idéias, ser danada, justa. Achei saudável para o Brasil".

Bethânia com sua arte presta um serviço ao povo brasileiro.Considerada a maior interprete da MPB,atravessa o tempo e toca todas gerações com sua arte única de cantar e interpretar textos e poesias. É uma guardiã e embaixadora da cultura brasileira. Marina, ex-serigueira que venceu todos os desafios de um sistema político social, econômico e cultural injusto e por vezes cruel, foi senadora, ministra do meio ambiente e chegou a ser candidata da república, obtendo quase 20 milhões de votos sem fazer acordos políticos, sem dinheiro para investir em campanha, falando a verdade,mantendo-se fiel aos seus princípios e fé, e fazendo uma campanha delicada, bela, equilíbrada, bonita, suave...Conhecida em todo o planeta,está na lista das 50 pessoas que podem ajudar a salvar o planeta.

Bethânia e Marina, duas mulheres que honram o nosso país e que são exemplos para o nosso povo! Uma saiu lá do interior da Bahia e "ganhou o mundo" e a outra, do interior do Acre, lá de dentro da maior floresta do mundo e também "ganhou o mundo".Duas belezas,duas forças,duas sabedorias que honram o nosso país. As duas são Marias, uma Maria Bethânia e a outra, Maria Osmarina, nossa Marina!


Simone Bichara

MANDALA 'MARIA'

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MARIA




I. A Flor
Pistilo e estame se casam numa flor.
Qualquer Maria se casa em uma mulher.
Depois a Maria lambe uma flor, cruza o pistilo e o estame, e do pólen nasce uma mulher. Depois a mulher se amamenta no néctar da Maria - a força para ser Rosa.
Ah! E rosas possuem espinhos, não só como defesa, mas como órgão quente veemente entranhado em seus escopos.
E flores possuem beleza e mistério e desabrocham em qualquer Maria.


II. O Sangue
Carmim derramado entre as pernas.
Vida nascendo entre os joelhos.
Lágrimas rubras em todos os janeiros.
Epifania nas noites extra-uterinas –
Onde se misturam placenta e escarlate
E onde não se sabe se a Maria é dor ou alegria
Sabe-se apenas que, inconfundivelmente, ela é mulher.


III. A Mãe
Fecham os olhos e vêem.
Silenciem e fustiguem as suas orações.
Há uma mãe virginal que pari os seus filhos pelos os corações.
Há uma senhora verde, com tetas grandes, aleitando o universo.
Há uma raiz gigante que fortifica o nosso pé e a nossa fé.
Mora lá dentro do nosso corpúsculo, a deusa primordial
Tão cheia de viço e natureza, que é a concentração do nosso natural
A Maria mãe que deu à luz aos deuses e as minúsculas partículas dos verbos.
Àquela que pariu o Gênese, e deu as suas próprias maçãs aos que tinham fome.
Àquela que não só nos coloca embaixo do seu sagrado manto, como nos aconchega em sua barriga, rasgando o seu umbigo e liquefazendo o seu íntimo ao nosso.
A Maria mãe que em seu sexo constrói todo o colosso.


IV. A Mandala
A roda de cura.
A barriga delicada e sedenta que gera os cernes e sementes
Filhos, pássaros, cachoeiras e serpentes.
A fragilidade e a força
Que permeiam o nosso motriz.
Colorida de flores - matizada de nuances rubra - em exaltação a uma grande mãe: A Maria
fala, também, através da mandala.


Mandala de Simone Bichara e texto de Daniella Paula Oliveira.





DEDICO 'MARIA' À DONA CANÔ VELLOSO



A primeira vez que essa mandala Maria apareceu em minha mente, sua energia foi de mãe, ela me lembrava D. Canô, era a imagem e a luz de D.Canô que vibravam na mandala. Essa pequena grande senhora tem energia de mãe universal, energia de doçura, amor incondicional, grandeza de espírito, acolhimento, abertura, concórdia... Canô simboliza para mim, todas as mães. Ela é uma grande mãe, uma mulher que transcendeu o amor pela família e expandiu seu afeto para todo o povo brasileiro, para o mundo... É Maria, cheia de fé, de luz, de sabedoria que em seus 103 anos, continua cheia de vida, alegria, esperanças, e com uma capacidade de doação fenomenal. Maria é Mãe que é Canô. Canô era o nome dessa mandala que virou Maria, que é Mãe e é Canô.


Simone Bichara

MINHA FLORESTA

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MINHA FLORESTA - Simone Bichara


O silêncio da minha floresta
Assusta pela profundidade
Que toca e revela
A alma
Da escuridão da noite
Surgem estrelas guias...
A noite pari luzes que apontam os caminhos.
Seus rios
São veias que levam e trazem vidas
Estradas,
Que em suas correntezas
Carregam e espalham a esperança.
Na minha floresta
O silêncio
É a força que move
O ritmo da vida.

Homogênea vista de fora,
Específica e multimensional
Para quem a conhece.
Uma mandala de contrastes e harmonias.
Gira em tudo que há
Mistério e poder
Brilham na lua cheia
Tocando de magia
O coração de todo seu povo.
Minha floresta...

Mandala LIMOEIRO

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LIMOEIRO

Época boa pra plantá-la é na chuva.
Assim, já se mela com as lágrimas dos céus e cultiva a planta.
Tem origem lá na Ásia.
E apesar de passarinho não comer, faz bem pras asas...
O limão cura a gripe, o resfriado, paladar adocicado e até o opaco –
É só reparar seu verde que uiva.

Limoeiro é boa pro quintal, pro matagal
Pras lesmas nuas, pras feridas cruas e até para fustigar a solidão.
Companheiro melhor que um velho limoeiro, não tem não.
E o umbigo de um limão?
Pra quem não sabe, mora lá dentro uma rameira virginal.
Dessas, que têm as raízes na pureza e a superfície na leviandade.

A acidez da fruta pode até fazer chorar, mas as suas flores...
Ah, essas são de fazer amar!
Beleza maior que um limoeiro retorcido pelo o tempo
Como um sórdido ancião brigando com o vento
É difícil de encontrar...
Por vezes se encontra assim: deparado com a mandala e curando as mazelas que ganhamos- enquanto plantamos nossos limoeiros.


Daniella Paula Oliveira
Mandala: "Limoeiro" de Simone Bichara
Texto de Daniella Paula Oliveira
Projeto "A Mandala e a Palavra."

Amazônia... a Deus

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Keilah Diniz é cantora e compositora. É goiana de nascimento e acreana de coração.
Para apresentar o seu trabalho para os que ainda não a conhecem e para os que já a conhecem relembrar e sentir o seu canto, postarei um vídeo com a sua música “Amazônia... a Deus”. Belíssima letra, melodia
voz e uma nobre mensagem.
Espero que sintam e reflitam!


video

Música: Amazônia... a Deus

Keilah Diniz/Maués Melo/Edmilson Figueiredo

do CD Amazônia...a Deus/1998

Créditos do vídeo a Daniella Paula.

MODERNIDADE E POLÍTICA

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MODERNIDADE E POLÍTICA

Por Jane Maria Villas Boas


O mundo passou por uma crise financeira recentemente, está adentrando uma crise ambiental que cada vez mais se expressa com sinais fortes. Já há também registros, por parte de alguns pensadores, de que estamos passando por uma crise política. Para essa última ainda não há grandes debates e manifestações. Mas se prestarmos atenção, ela está no horizonte.

Quando a consciência de qualquer indivíduo se estende para a dimensão planetária dos problemas sociais e econômicos de nossa época, percebe que a superação deles está fora do alcance da intervenção individual de quem quer que seja.

Diante dessa descoberta qualquer um de nós pode ter duas atitudes. Uma, continuar com nossa vida nos alienando dessa informação, desistindo de fazer qualquer diferença real no mundo, ainda que só no nosso entorno, mas atormentados eticamente por termos escolhido a alienação. Outra, tentar construir, junto com outras pessoas, forças e instituições, algo que consiga impactar a origem e a dinâmica da crise para superá-la, debelá-la ou dar-lhe um rumo favorável à vida em nosso planeta. Sim, as crises podem resultar em coisas boas também.

Ambas as escolhas são atitudes políticas. É justamente a política que permite a construção de uma sociedade predominantemente justa ou de uma predominantemente injusta. É a política que pode por um país na vanguarda ou encarcerá-lo no arcaísmo civilizacional.

Cada época da história humana tem a política de seu tempo. Alan Touraine, no artigo “As três crises”, publicado no jornal El País em janeiro deste ano, diz que a ação política já não tem mais como objeto uma disputa de interesses entre grupos, mas a defesa de direitos de quem nos sucederá no planeta. Portanto, o sujeito da política, para Touraine, já não é mais uma categoria social, mas a própria humanidade. Edgar Morin, em recente livro chamado, em tradução livre, “Para sair do século XX”, fala da transição difícil entre um período temporal, toda sua construção cultural e um novo período temporal que traz novas perguntas ou até nova forma de perguntar e, portanto, a necessidade de novas respostas.

Esse é o momento em que vivemos. Nosso mundo está com seu sistema ecológico ameaçado pela intervenção humana. Nosso sistema de valores precisa pensar um novo tipo de solidariedade que possa responder a uma situação que ameaça a nossa espécie. Nosso modo de contar o tempo registra o início de novo ciclo de cem anos e certamente é necessário descobrir um novo jeito de responder a perguntas como “de que jeito podemos continuar vivendo juntos neste planeta”?

Por tudo isso me causou estranhamento o artigo do professor Marcos Inácio intitulado “A direita veste verde”, publicado no jornal Página 20. Nas últimas décadas do século passado, quando um grupo de sindicalistas apoiados por acadêmicos perceberam que o sistema bipartidário não respondia mais às necessidades de expressão política de significativa parte da população, o líder da iniciativa, chamado Lula no meio sindical, foi acusado de ser divisionista, de fazer a política da ditadura militar por estar enfraquecendo a frente de oposições que se abrigava no então MDB. E hoje sabemos, era legítimo. Havia mesmo a necessidade de um novo espaço de atuação política. Uma paixão social estava procurando canal de expressão, havia uma força movida a sonhos de liberdade que não tinha seu lugar no cenário nacional. Tudo isso com uma dimensão que não cabia mais no arranjo político que se abrigava sob a sigla MDB, que era quem enfrentava a ditadura e seu partido político cuja sigla era ARENA.

Hoje, final da primeira década do século XXI, no momento em que temos pela frente a necessidade de repensar tantas coisas como as bases materiais da produção e do consumo, a noção de desenvolvimento em si, os modelos de urbanismo, a destinação de todos os resíduos não só industriais mas também os domésticos, o uso do solo e da água, é hora de acusações contra quem resolveu falar disso para o país em uma eleição presidencial?

Negar o lócus político para quase 20% de eleitores que se identificaram com uma mensagem que fala de nova forma de fazer política e de novos valores na gestão da coisa pública, que resgata o conceito de atitudes republicanas, que enfatiza o respeito pelo bem público, que alerta para o esgotamento dos recursos que sustentam a existência material da humanidade, é democrático?

Insinuar associações com raízes históricas do nazismo e do fascismo em suas versões tupiniquins na apresentação de um projeto de país que considere todas essas questões apontadas, é ser justo?

Não tolerar a coerência da trajetória política de alguém que apenas continua uma história, uma proposta, um desejo coletivo que começou aqui mesmo no Acre, com a recusa de se deixar ser tratado como mera fronteira agrícola e brigou para ser a terra da florestania, sob liderança de um seringueiro que viveu uma paixão cívica até a morte por assassinato, é ter uma visão da política adequada ao tempo presente?

O Acre, nos últimos 20 anos construiu as bases conceituais e materiais de uma outra percepção da dimensão econômica da vida. O grupo que renovou e transformou a dinâmica social dessa unidade da federação brasileira o fez através da política. Uma política que convidava as pessoas a afastar o olhar de sua perspectiva usual das coisas e a ousar pensar de outra forma. Uma política que alimentou a capacidade da população local de resistir aos projetos de poderosas forças sociais, econômicas e políticas vindas do centro sul do país. Uma política que resgatava a dignidade e a respeitabilidade dos humildes dessa terra: os ribeirinhos, os seringueiros, os índios, os despossuídos das periferias de Rio Branco. Uma política que enfim chegou às prefeituras e ao governo do Estado e colocou o Acre no mapa da nação com outra imagem. E agora está declarado que o processo para por aqui?

Marina esteve na origem de tudo isso atuando e aprendendo com Chico Mendes. Foi para Brasília com a missão de representar um estado que era tratado na imprensa nacional como fonte de más e escandalosas notícias. Tinha a missão também de dar ao país a notícia de que aqui não serviam os modelos burocráticos de reforma agrária utilizados em outras regiões do país. De que no Acre o desenvolvimento considerava também a justiça social e o uso inteligente e avançado dos recursos naturais de nosso pequeno território e, portanto aqui não se faria sem controle a substituição de uma rica e desconhecida biodiversidade por uma monocultura arcaica. Que no Acre a população queria pensar, elaborar e escolher sua forma de construir uma economia adequada ao tempo presente.

Marina cumpriu fielmente seu papel. Essas notícias encantaram não apenas o país, mas transbordaram para o planeta. O sistema ONU a reconheceu como campeã da terra. Monarquias européias a premiaram. Fundações americanas lhe reconheceram a luta incansável pelo planeta. A poderosa imprensa americana dedicou-lhe páginas e páginas elogiosas e o seríssimo “The Guardian” da Inglaterra a apontou como uma das 50 pessoas que podem ajudar a salvar o planeta. E, há menos de um mês atrás, com um partido pequeno, com 1 minuto e 23 segundos de programa eleitoral na TV, com a menor arrecadação dentre os três principais candidatos, com os institutos de pesquisa subtraindo do público a informação de seu real percentual de intenção de votos, com todas essas circunstâncias desfavoráveis, foi escolhida por quase 20 milhões de brasileiros para receber o voto para Presidente do país.

Ao sair do PT Marina o fez de forma democrática, conversando com os dirigentes nacionais e locais. Não ficou convidando ninguém para acompanhá-la no novo partido. Muitas pessoas o fizeram, mas por iniciativa própria. No processo eleitoral do Acre teve a generosidade de compreender a posição dos líderes petistas dentro da Frente Popular, que não a apoiaram, e não só declarou voto como fez campanha por eles. Perguntada por repórteres da grande imprensa brasileira se ficava triste com sua votação em seu estado, teve a elegância de dizer que do povo do Acre ela não cobra nada, apenas agradece.

E tudo que o professor Marcos acha é que essa trajetória se deu até aqui, dentro do mais estrito rigor ético, para cumprir o papel de força auxiliar do PSDB e atrapalhar a festa da candidata Dilma logo no primeiro turno?

Acho que precisamos rapidamente nos preparar para uma quarta e terrível crise, que infelizmente começará também aqui, em algumas cabeças no Acre: a crise de percepção.

Jane Maria Vilas Bôas é antropóloga e membro da assessoria da senadora Marina Silva (PV-AC)

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